Três em cada dez alunos da FESP estão na segunda graduação. Para esse público, a entrevista de emprego costuma ser o momento mais desafiador da transição. 

Para quem está em transição de carreira, atualizar o currículo é a parte fácil. O verdadeiro teste chega quando o candidato se senta na cadeira da entrevista e precisa explicar, em poucos minutos, por que decidiu recomeçar e por que faz sentido apostar nele mesmo sem uma trajetória na nova área pretendida.  

Para quem está vivendo esse momento, uma situação como essa pode ser paralisante, não por falta de experiência, mas por falta de narrativa. De acordo com Mark, consultor da JOBareo, empresa parceira da FESP, “é comum que pessoas em transição cheguem à entrevista com repertório, maturidade e vontade de aprender, mas sem uma história clara”.  

“A experiência anterior pode ser valiosa. Porém, se ela não for traduzida para a linguagem da vaga, o recrutador enxerga apenas uma falta de experiência direta.”, complementa o consultor. 

Esse diagnóstico explica por que tantos candidatos competentes saem de seleções sem entender o que deu errado. Portanto, a preparação precisa começar antes do treino de respostas: deve iniciar com um esclarecimento sobre a própria mudança. 

Competências que atravessam fronteiras 

Foto: Freepik

O primeiro passo, segundo o consultor, é mapear o que ele chama de competências transferíveis. Ao invés de olhar apenas para cargos anteriores, o candidato deve identificar problemas que já resolveu e habilidades que podem ganhar novo significado na área desejada. 

Gestão de prazos, comunicação com diferentes públicos, análise de dados e organização de processos, por exemplo, são experiências que existem em diversas trajetórias profissionais. Além disso, essas competências podem ser reaproveitadas em contextos completamente diferentes. 

Em seguida, é fundamental estudar a empresa e a posição com objetividade. Isso não significa decorar informações institucionais, mas sim, compreender que tipo de contribuição aquela vaga pede e compará-la com a própria trajetória. 

“Uma boa preparação passa por responder a uma pergunta simples: quais partes da minha experiência ajudam a resolver os problemas dessa função?”, explica Mark. 

Esse exercício transforma a maneira como o candidato fala sobre si mesmo. Em vez de apresentar a transição como uma ruptura, ele consegue demonstrar continuidade. 

As perguntas que todo recrutador faz 

Há um conjunto de dúvidas que aparece com frequência em entrevistas de transição: 

  • Por que você quer mudar agora? 
  • O que já fez para se preparar? 
  • Como vai lidar com a falta de experiência direta?  

Pode parecer, mas essas perguntas não são armadilhas — são oportunidades. 

“O objetivo não é fingir que a transição não existe”, afirma Mark“É mostrar que ela foi pensada, estudada e construída com responsabilidade.” 

Segundo o consultor, candidatos que já refletiram sobre esses pontos respondem com mais segurança, sem improvisar uma justificativa defensiva. Além disso, exemplos concretos tornam a conversa mais convincente. Um projeto em que precisou aprender algo novo rapidamente, uma situação em que organizou informações complexas ou um momento em que colaborou com equipes diferentes.  

Tudo isso revela competências relevantes, independentemente do setor onde aconteceram. 

Um plano em quatro etapas 

Para organizar a preparação, Mark sugere uma estrutura simples: primeiro, entenda a empresa e a vaga. Em segundo lugar, liste competências transferíveis da trajetória anterior. O terceiro passo é preparar respostas para as principais dúvidas sobre a transição e por fim, treine exemplos concretos que mostrem aprendizado e adaptação. 

“Esse plano reduz a ansiedade porque dá direção”, conclui o consultor. “Em vez de tentar prever todas as perguntas, o candidato passa a entender quais mensagens precisa transmitir.”, conclui Mark. 

No fim, preparar-se para uma entrevista em transição de carreira não é decorar respostas perfeitas. É construir clareza. Quando o candidato entende a própria trajetória e consegue traduzi-la para a necessidade da vaga, a entrevista deixa de ser uma defesa sobre o passado e passa a ser uma conversa mais consistente sobre o futuro.